> Para quem gosta de livros, e da literatura russa em particular, Nina e Filipe Guerra não são nomes quaisquer. Mais do que facilmente identificável, o trabalho desta dupla de tradutores tornou-se sinónimo de rigor e de extrema objetividade, um selo de qualidade para sucessivas gerações de leitores que (re)descobriram o génio de autores como Dostoievski, Tolstoi, Tchékhov, Gogol ou Púchkin. Graças ao trabalho incessante do casal, foi possível ler traduções feitas diretamente a partir do original russo, em vez das adaptações feitas do francês ou do inglês, como até então acontecia, com todos os prejuízos que daí advinham para uma fruição devida dessas obras.
> “É necessário que se conheça a verdade que o escritor queria transmitir, para o leitor ver, dentro do possível, a individualidade artística, o seu estilo, e compreender a sua mensagem”, diz a tradutora ao JN, convicta, ainda assim, de que verter “é sempre mais pobre do que o original, uma tentativa desesperada de se aproximar daquilo que o autor criou”.
> Até à morte de Filipe Guerra, em junho do ano passado, foram muitas dezenas as traduções com a assinatura do casal, que se conheceu em Moscovo, na década de 1980. Ambos trabalhavam em editoras nas quais os livros russos eram traduzidos para idiomas estrangeiros. “Já ambos tínhamos experiência em tradução e não tardámos a perceber que surgiam problemas quando a tradução não se fazia diretamente do original, que surgiam deturpações. E decidimos juntar as nossas capacidades e trabalhar em equipa”, recorda.
> A chegada a Portugal deu-se em 1990 e os primeiros anos foram marcados pela tentativa de “aprender a trabalhar em conjunto, sempre a duvidar, a fazer e refazer, a emendar os erros, sem parar”. Quando, em 1996, Manuel Hermínio Monteiro, editor da Assírio & Alvim, os convidou a traduzir *Guarda Minha Fala para Sempre*, pequena coletânea de poesia e prosa de Ossip Mandelstam, o método e a divisão de trabalho entre ambos já estavam definidos. Nina fazia o esboço inicial, após o que Filipe dava uma forma mais natural e literária. Só depois de uma nova leitura da tradutora, “para detetar os possíveis desvios de sentido”, e de uma revisão conjunta, é que o texto seguia para a editora. Quando as emendas feitas pelos revisores chegavam, o casal aprovava-as ou não. E, aquando das reedições, havia ainda uma nova leitura para aperfeiçoar o texto.
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> O esforço quase insano compensou. O reconhecimento chegou sob a forma de várias distinções, como o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2001, e o Prémio Especial do Júri Ler/Booktailors, mas, para o casal luso-russo, nada suplantava a aprovação do trabalho por pessoas que não tinham especial ligação aos círculos literários.
> Muitos desses leitores contactavam Filipe através das redes sociais, mas não só. Nina recorda que, ao regressarem a Portugal, conheceram uma jovem polícia no controlo de passaportes do aeroporto que, após reconhecer os seus nomes, não escondeu o entusiasmo, dizendo-lhes que seguia todas as traduções que faziam. Devota dos grandes nomes da literatura russa, a tradutora continua a acompanhar as criações literárias mais recentes. Um dos últimos trabalhos da dupla foi *E Três Maçãs Caíram do Céu*, de Narine Abgaryan, um livro que considera “brilhante” e já traduzido para várias línguas. “Aparecem novos talentos, e que talentos!”, assegura.
> A distância e os anos não diminuíram os sentimentos de Nina Guerra em relação ao país natal. Continua a pensar em russo e a acreditar que a sua pátria “vai aguentar e ultrapassar todas as desgraças”. E nem mesmo a guerra em curso afeta o acolhimento das artes e das letras russas, garante: “O interesse pela nossa literatura até cresceu. É claro que, na Ucrânia, a proibição da língua e a destruição de milhões de exemplares de livros escritos em russo privaram temporariamente os leitores ucranianos da sua legítima herança cultural. Não faz mal. Porque, como disse Mikhail Bulgakov, ‘os manuscritos não ardem’.”
Jooo_2002 on
Na Bertrand, disseram-me que as melhores traduções de Dostoiévski eram desse casal. Das traduções deles, só li o Gente Pobre. Era fixe.
Minute-Giraffe-1418 on
Li quase exclusivamente traduções deles do Dosto e adorei, a unica exceção os irmaos karamazov que li em ingles
RuySan on
Sempre pensei que eles eram irmãos. Nem faz sentido, e não me perguntem porquê.
Li o Idiota, Demónios, Crime e Castigo, o Jogador e Noites Brancas de Dostoevsky, acho que todos traduzidos por eles.
Literatura fenomenal.
Impossible-Laugh1208 on
Só li CEC deles. Tenho o Demónios também.
Karamazov em inglês
ShadowPT on
Leio as traduções do António Pescada pois prefiro as edições da Relógio d’Água. Creio que ambos são bem consagrados em termos de traduções.
VicenteOlisipo on
Sem abrir já sabia que era sobre a Nina Guerra e Filipe Guerra. Os GOAT da tradução russo-português. Todas as feiras do livro tento comprar 2 ou 3 deles
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9 Kommentare
> Para quem gosta de livros, e da literatura russa em particular, Nina e Filipe Guerra não são nomes quaisquer. Mais do que facilmente identificável, o trabalho desta dupla de tradutores tornou-se sinónimo de rigor e de extrema objetividade, um selo de qualidade para sucessivas gerações de leitores que (re)descobriram o génio de autores como Dostoievski, Tolstoi, Tchékhov, Gogol ou Púchkin. Graças ao trabalho incessante do casal, foi possível ler traduções feitas diretamente a partir do original russo, em vez das adaptações feitas do francês ou do inglês, como até então acontecia, com todos os prejuízos que daí advinham para uma fruição devida dessas obras.
> “É necessário que se conheça a verdade que o escritor queria transmitir, para o leitor ver, dentro do possível, a individualidade artística, o seu estilo, e compreender a sua mensagem”, diz a tradutora ao JN, convicta, ainda assim, de que verter “é sempre mais pobre do que o original, uma tentativa desesperada de se aproximar daquilo que o autor criou”.
> Até à morte de Filipe Guerra, em junho do ano passado, foram muitas dezenas as traduções com a assinatura do casal, que se conheceu em Moscovo, na década de 1980. Ambos trabalhavam em editoras nas quais os livros russos eram traduzidos para idiomas estrangeiros. “Já ambos tínhamos experiência em tradução e não tardámos a perceber que surgiam problemas quando a tradução não se fazia diretamente do original, que surgiam deturpações. E decidimos juntar as nossas capacidades e trabalhar em equipa”, recorda.
> A chegada a Portugal deu-se em 1990 e os primeiros anos foram marcados pela tentativa de “aprender a trabalhar em conjunto, sempre a duvidar, a fazer e refazer, a emendar os erros, sem parar”. Quando, em 1996, Manuel Hermínio Monteiro, editor da Assírio & Alvim, os convidou a traduzir *Guarda Minha Fala para Sempre*, pequena coletânea de poesia e prosa de Ossip Mandelstam, o método e a divisão de trabalho entre ambos já estavam definidos. Nina fazia o esboço inicial, após o que Filipe dava uma forma mais natural e literária. Só depois de uma nova leitura da tradutora, “para detetar os possíveis desvios de sentido”, e de uma revisão conjunta, é que o texto seguia para a editora. Quando as emendas feitas pelos revisores chegavam, o casal aprovava-as ou não. E, aquando das reedições, havia ainda uma nova leitura para aperfeiçoar o texto.
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> O esforço quase insano compensou. O reconhecimento chegou sob a forma de várias distinções, como o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2001, e o Prémio Especial do Júri Ler/Booktailors, mas, para o casal luso-russo, nada suplantava a aprovação do trabalho por pessoas que não tinham especial ligação aos círculos literários.
> Muitos desses leitores contactavam Filipe através das redes sociais, mas não só. Nina recorda que, ao regressarem a Portugal, conheceram uma jovem polícia no controlo de passaportes do aeroporto que, após reconhecer os seus nomes, não escondeu o entusiasmo, dizendo-lhes que seguia todas as traduções que faziam. Devota dos grandes nomes da literatura russa, a tradutora continua a acompanhar as criações literárias mais recentes. Um dos últimos trabalhos da dupla foi *E Três Maçãs Caíram do Céu*, de Narine Abgaryan, um livro que considera “brilhante” e já traduzido para várias línguas. “Aparecem novos talentos, e que talentos!”, assegura.
> A distância e os anos não diminuíram os sentimentos de Nina Guerra em relação ao país natal. Continua a pensar em russo e a acreditar que a sua pátria “vai aguentar e ultrapassar todas as desgraças”. E nem mesmo a guerra em curso afeta o acolhimento das artes e das letras russas, garante: “O interesse pela nossa literatura até cresceu. É claro que, na Ucrânia, a proibição da língua e a destruição de milhões de exemplares de livros escritos em russo privaram temporariamente os leitores ucranianos da sua legítima herança cultural. Não faz mal. Porque, como disse Mikhail Bulgakov, ‘os manuscritos não ardem’.”
Na Bertrand, disseram-me que as melhores traduções de Dostoiévski eram desse casal. Das traduções deles, só li o Gente Pobre. Era fixe.
Li quase exclusivamente traduções deles do Dosto e adorei, a unica exceção os irmaos karamazov que li em ingles
Sempre pensei que eles eram irmãos. Nem faz sentido, e não me perguntem porquê.
Para quem aprecia cultura russa: [https://open.spotify.com/intl-pt/album/0MqLpVZK9Uc8JhMuPz0H5O?si=lhPBJosDS0K-p1PIeQSQFg](https://open.spotify.com/intl-pt/album/0MqLpVZK9Uc8JhMuPz0H5O?si=lhPBJosDS0K-p1PIeQSQFg)
Li o Idiota, Demónios, Crime e Castigo, o Jogador e Noites Brancas de Dostoevsky, acho que todos traduzidos por eles.
Literatura fenomenal.
Só li CEC deles. Tenho o Demónios também.
Karamazov em inglês
Leio as traduções do António Pescada pois prefiro as edições da Relógio d’Água. Creio que ambos são bem consagrados em termos de traduções.
Sem abrir já sabia que era sobre a Nina Guerra e Filipe Guerra. Os GOAT da tradução russo-português. Todas as feiras do livro tento comprar 2 ou 3 deles