É curioso, ou melhor, é exquisitamente conveniente, como certas “grandes investigações” só ganham vida quando o calendário político assim o exige. A Boslova não chegou ontem, não caiu de paraquedas na Zona Franca, não emergiu de uma falha sísmica entre as Ajudas e o Funchal. Chegou em 2014. Repito: 2014.
Mas, vá-se lá saber porquê, só agora, precisamente na altura em que se discute o Orçamento de Estado, é que a SIC descobre esta pérola arqueológica do Registo Comercial. Que timing fabuloso. Há fenómenos astronómicos menos previsíveis.
O padrão é sempre o mesmo:
1. pega-se num caso antigo,
2. dá-se um banho morno de “urgência jornalística”,
3. acende-se o holofote para o sítio costumeiro, a Zona Franca da Madeira, o vilão preferido do país centralista.
E, claro, varre-se discretamente para debaixo do tapete a parte realmente relevante: Por onde passou este dinheiro? Que banco abriu as contas? Quem fez o KYC? Quem reportou (ou não) ao UIF?
Mas não, isso dava trabalho. E podia incomodar instituições com colchões mais fofos do que o de um escritório no segundo andar da Rua dos Murças.
Muito mais fácil é martelar sempre o mesmo alvo: a Madeira, a autonomia e um regime fiscal aprovado pelo próprio Estado português e validado pela Comissão Europeia. É a narrativa mais fácil de vender ao público continental: a culpa é sempre do “offshore” interno. Nunca é do sistema financeiro que permite a entrada e circulação do capital. Nunca é do Governo que legisla. Nunca é das autoridades que supervisionam. Nunca é do jornalismo que acorda tarde.
Mas o mais divertido? A SIC, tão preocupada com a “opacidade internacional”, nunca achou curioso investigar as origens das suas próprias elites intelectuais, das suas redes de influência, ou dos convites para certos retiros discretos com menu de ideais prêt-à-porter. Não vá alguém lembrar o Clube Bilderberg e estragar o enredo.
A Boslova é de 2014. A reportagem é de 2025.
O que mudou? A empresa, não. O dono, também não. Os documentos, muito menos.
O que mudou foi o contexto político. E, como sempre, a Madeira paga as favas, porque continua a ser o bode expiatório favorito de quem precisa de desviar atenções sem enfrentar os problemas reais do país.
Enfim. Adoro estas „coincidências“ jornalísticas, vulgo reportagens de encomenda.
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É curioso, ou melhor, é exquisitamente conveniente, como certas “grandes investigações” só ganham vida quando o calendário político assim o exige. A Boslova não chegou ontem, não caiu de paraquedas na Zona Franca, não emergiu de uma falha sísmica entre as Ajudas e o Funchal. Chegou em 2014. Repito: 2014.
Mas, vá-se lá saber porquê, só agora, precisamente na altura em que se discute o Orçamento de Estado, é que a SIC descobre esta pérola arqueológica do Registo Comercial. Que timing fabuloso. Há fenómenos astronómicos menos previsíveis.
O padrão é sempre o mesmo:
1. pega-se num caso antigo,
2. dá-se um banho morno de “urgência jornalística”,
3. acende-se o holofote para o sítio costumeiro, a Zona Franca da Madeira, o vilão preferido do país centralista.
E, claro, varre-se discretamente para debaixo do tapete a parte realmente relevante: Por onde passou este dinheiro? Que banco abriu as contas? Quem fez o KYC? Quem reportou (ou não) ao UIF?
Mas não, isso dava trabalho. E podia incomodar instituições com colchões mais fofos do que o de um escritório no segundo andar da Rua dos Murças.
Muito mais fácil é martelar sempre o mesmo alvo: a Madeira, a autonomia e um regime fiscal aprovado pelo próprio Estado português e validado pela Comissão Europeia. É a narrativa mais fácil de vender ao público continental: a culpa é sempre do “offshore” interno. Nunca é do sistema financeiro que permite a entrada e circulação do capital. Nunca é do Governo que legisla. Nunca é das autoridades que supervisionam. Nunca é do jornalismo que acorda tarde.
Mas o mais divertido? A SIC, tão preocupada com a “opacidade internacional”, nunca achou curioso investigar as origens das suas próprias elites intelectuais, das suas redes de influência, ou dos convites para certos retiros discretos com menu de ideais prêt-à-porter. Não vá alguém lembrar o Clube Bilderberg e estragar o enredo.
A Boslova é de 2014. A reportagem é de 2025.
O que mudou? A empresa, não. O dono, também não. Os documentos, muito menos.
O que mudou foi o contexto político. E, como sempre, a Madeira paga as favas, porque continua a ser o bode expiatório favorito de quem precisa de desviar atenções sem enfrentar os problemas reais do país.
Enfim. Adoro estas „coincidências“ jornalísticas, vulgo reportagens de encomenda.